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1. INTRODUÇÃO

Ansiedade é uma emoção normal do ser humano perante situações que provoquem algum tipo de expectativa, de medo ou de dúvida.

É necessário atentar as manifestações desse sintoma de forma exagerada, pois isso pode atrapalhar de maneira considerável a vida do indivíduo.

As características desta emoção demonstram uma intercessão entre físico e o psíquico que em desequilíbrio suscitam sintomas físicos como taquicardia sudorese cefaléia, etc. (OLIVEIRA, 2010). O desequilíbrio deve ser visto como um sinal de alerta para que o indivíduo perceba que existe algo que precisa ser tratado.

A ansiedade em um limiar de normalidade prepara o indivíduo para lidar com situações que comprometam a sua integridade física, social ou moral. No caso de uma ansiedade exacerbada o indivíduo perde o seu equilíbrio ficando suscetível, sendo necessário neste caso tratamento psicoterápico e às vezes medicamentoso. Por esse motivo é necessário observar esse desequilíbrio entendendo um pouco melhor sobre as funções internas de nosso corpo. O DSM-V (5ª Edição ? 2014) considera Transtorno da Ansiedade Generalizada (TAG), um distúrbio caracterizado pela ?preocupação excessiva ou expectativa apreensiva?.

A hipnose é uma técnica pode auxiliar a psicoterapia no tratamento desse transtorno de ansiedade gerado por esse desequilíbrio. Trata-se de uma ferramenta terapêutica que pode ser usada em conjunto com qualquer terapia por profissional capacitado. Uma série de pesquisas e estudos já deixou clara a eficácia dessa técnica em psicoterapia no trabalho em indivíduos adultos para o tratamento do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), assim como para outros transtornos de ansiedade e outros propósitos (FERREIRA, 2013).

A hipnose aumenta a eficácia das intervenções, ou seja, ao vivenciar, em hipnose, um momento do passado sob forte emoção as pessoas experimentam menos ansiedade que o momento real e conseguem assimilar de forma equilibrada as intervenções e sugestões do psicoterapeuta sentindo-se mais confortável e compreendendo melhor os contextos vividos. Quando o paciente se encontra em transe, o seu consciente se torna menos vigilante e seu inconsciente se abre, fazendo com que o paciente atenda as sugestões involuntárias oferecidas pelo hipnotizador modificando a forma como o indivíduo interpreta a situação conflitante (BAUER, 2010).

Em conformidade com alguns autores este artigo objetiva salientar dentro dos estudos dos mesmos, a potência dessa técnica no tratamento do Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) em indivíduos adultos. Algumas técnicas também serão apresentadas demonstrando a eficácia da hipnose como ferramenta terapêutica.

2. TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA

2.1 CONCEITO

A ansiedade é o sintoma de características psicológicas que mais exemplifica a interação entre os aspectos psíquicos e físicos. É um sinal de alerta que prepara a pessoa para o enfrentamento de algum perigo ou ameaça.

O medo é a nossa reação a uma ameaça mais clara e definida. O medo é sempre ligado a uma causa específica, que pode significar perigo real, e nossa reação é de evitar esse contexto.

Já a ansiedade produz uma sensação vaga, imprecisa, difusa, e nos prepara para o enfrentamento de situações que sentimos como potencialmente ameaçadoras, que possam atingir nossa integridade física ou psicológica. É uma reação natural de auto-preservação e se auto-limita. Dentro desses parâmetros, poderemos denominá-la de ansiedade normal em oposição à ansiedade patológica (OLIVEIRA, 2011).

A ansiedade patológica se caracteriza por ser uma resposta inadequada e desproporcional relativamente ao que a provocou.

Enquanto a ansiedade normal serve de estímulo à pessoa, para que se prepare e enfrente com sucesso certas situações, a ansiedade patológica age no sentido contrário, prejudicando a pessoa em várias áreas; no seu desempenho, no seu bem-estar, paralisando e impedindo que se prepare e enfrente situações ameaçadoras.

Já os transtornos de ansiedade são uma resposta a perigos sentidos internamente e freqüentemente simbólicos (FERREIRA, 2006).

A Associação psiquiátrica americana (APA), no seu Manual Estatístico e Diagnóstico dos transtornos mentais DSM-IV (4edição1994) classifica o Transtorno de ansiedade generalizada (TAG) como um quadro de ansiedade excessiva e preocupações de longa duração, por um mínimo de seis meses. É caracterizado por sintomas somáticos vários, trazendo como conseqüência sério comprometimento social ou ocupacional.

A exceção a esse diagnóstico, de acordo com (DSM-IV 1994), é quando o surgimento dessa ansiedade patológica está associado ao abuso de drogas ou á crises de abstinência de drogas.

Um aspecto bastante típico do TAG é a característica de irrealismo e excesso no tipo de preocupação, os sintomas somáticos e o fato do foco da apreensão se deslocarem com relativa facilidade (NARDI, 2005).

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), na classificação de Transtornos Mentais (CID-10), o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é visto como um quadro ansioso, persistente, generalizado, cujos sintomas são: nervosismo crônico, tremores, tensão muscular, palpitações, mal-estar gastro-intestinal, insônia, sudorese, cabeça leve, tonteiras. Muito presentes também, são relatos de receios de que alguma coisa de mal lhe aconteça ou a algum parente próximo. Pressentimentos, apreensões, sempre de conteúdo negativo.

Segundo SILBERFARB, 2011, o sintoma principal é a expectativa apreensiva, ou preocupação exagerada e excessiva, mórbida.

Pelo entendimento de BORKOVEK, 1985, a preocupação é uma cadeia de pensamentos e imagens carregados de afeto negativo e incontroláveis, representando uma tentativa de solução em nível mental de problemas cujo resultado seria incerto. Essas apreensões não se expressam através de ataques e sofrem oscilações ao longo do tempo. Em geral as pessoas declaram que sempre foram nervosas e tensas. O início é precoce e gradualmente evolui para a cronicidade. (SILBERFARB, 2011),

2.2. HISTÒRICO:

A primeira referência ao que mais tarde seria chamado de Transtorno de ansiedade generalizada veio através de Jacob Da Costa que denominou essa condição de ?Síndrome do coração irritável?. Freud chamou-a de ?Neurose de ansiedade?.

De lá para cá, se estabeleceu a divisão oficial das ?Neuroses de ansiedade? em subgrupos específicos e com respaldo clínico. O termo ?Transtorno de ansiedade generalizada? (TAG) foi então introduzido, enfatizando que a diferença entre a ansiedade normal e o TAG, residiria no descontrole e na desproporção das preocupações (e a conseqüente perda funcional que isso ocasiona). Nos sintomas somáticos e no grave mal-estar que caracteriza esse transtorno. (NARDI, 1996).

2.3 EPIDEMOLOGIA:

Um estudo feito em cinco cidades dos EUA mostrou uma taxa de prevalência entre 2,5% e 8% no período de um ano. Dentre os transtornos de ansiedade, o TAG é o mais comum, atingindo em torno de 3% da população (NARDI, 1996).

Acredita-se que as mulheres são duas vezes mais acometidas que os homens pelo Transtorno de Ansiedade Generalizada e mulheres abaixo de 20 anos, são atingidas mais freqüentemente.

Relatos revelam que há uma piora na fase pré-menstrual. Muitas vezes também o problema pode começar na infância (OLIVEIRA, 2011). O TAG é quatro vezes mais freqüente que o Transtorno de pânico.

2.4 SINTOMATOLOGIA:

O Transtorno de Ansiedade Generalizada vem acompanhado necessariamente por pelo menos três dos sintomas abaixo:

Inquietação

Irritabilidade

Fatigabilidade

Dificuldade de concentração

Tensão muscular

Perturbações do sono (OLIVEIRA, 2011).

As pessoas acometidas pela TAG, em geral, não se dão conta de que suas preocupações são desproporcionais, mas nas suas descrições do seu estado percebe-se muito sofrimento subjetivo provocado por estas preocupações. Sempre existe prejuízo substancial na sua vida social, profissional ou em outras áreas de importância. A característica mais central do Transtorno de Ansiedade Generalizada é a preocupação constante, desproporcional, excessiva e descontrolada com questões do cotidiano ou de saúde pessoal e da família, dinheiro, segurança, rendimento no trabalho, desempenho nos estudos, performance no esporte, etc. A duração, freqüência e intensidade destas preocupações não correspondem às situações reais. No contexto da TAG o foco da preocupação pode ser transferido de um aspecto para outro. Os indivíduos acometidos pelo Transtorno de Ansiedade Generalizada podem se descritos como ?especialistas? em identificar situações potencialmente ameaçadoras, através do seu tipo específico de pensamento, que é seletivo do ponto de vista negativo. (SILBERFARB,2011).

2.5. COMORBIDADE:

No que diz respeito à comorbidade, pode-se afirmar que cerca de 90% das pessoas vítimas do TAG, apresentam também ao longo de suas vidas algum outro transtorno mental ou dependência ao álcool, medicamentos e depressão. Freqüentemente também aparecem a Depressão Maior; a Distimia; a Fobia Social; Fobia Específica; Abuso de drogas; Transtorno de Pânico. Quando existem outros diagnósticos somando-se ao TAG, a configuração do processo terapêutico se torna mais complexa assim como o prognóstico. Em indivíduos com TAG, associado a uma depressão profunda, o problema assume característica mais severa, por tempo mais longo e com prejuízos ainda maiores na parte funcional. (NARDI, 1996).

O Transtorno de Ansiedade Generalizada pode ser entendido focando em três áreas distintas:

Tensão motora: dores musculares, dificuldade para relaxar, cansaço, tremores, cefaléia, piscar os olhos.

Hiperatividade autonômica: dificuldade em respirar adequadamente, tontura, ondas de frio e calor, sudorese, palpitações, micção freqüente, boca seca, sensação de formigamento nas mãos e pés, aperto na garganta.

Hiper-vigilância: dificuldade de concentração, freqüência de esquecimentos, expectativa apreensiva, ruminação, irritabilidade, insônia, preocupações excessivas e pouco razoáveis, sensação de que coisas ruins irão acontecer para si ou para entes queridos. (NARDI,2005).

2.6. ETIOLOGIA:

Existem algumas hipóteses teóricas com referência à etiologia da ansiedade patológica:

1. As teorias psicanalíticas postulam que esse tipo de ansiedade seria uma sinalização dirigida ao Ego, para ressaltar a necessidade de tomar medidas de defesa relativas à emergência de pressões instintuais interiores.

2. As teorias comportamentais encaram a ansiedade em geral, como resposta previamente condicionada á estímulos do meio ambiente da pessoa. Nesse caso o grau de seriedade desses estímulos passariam por um processo de distorção. A teoria cognitiva da ansiedade patológica ressalta o papel de certos padrões de pensamento incorretos, na emergência de comportamentos desadaptados.

As pessoas acometidas por transtornos de ansiedade se subestimam e colocam em dúvida a sua capacidade de lidar com ameaças. Por outro lado, costumam superestimar o grau do perigo à que se sentem confrontadas.

3. Para as teorias existenciais a ansiedade seria a reação da pessoa a uma tomada de consciência que apontaria para uma vivência de vazio e falta de significado na sua existência.

4. As teorias biológicas são baseadas em referenciais que comparam a função cerebral de indivíduos com transtornos de ansiedade (usando ansiolíticos), com a de pessoas normais. Admite-se que haja uma sensibilidade biológica maior em determinados indivíduos. Os neurotransmissores mais comumente associados á ansiedade são a noradrenalina, a serotonina e o ácido gama-aminobutírico (GABA).

Segundo a teoria cognitiva comportamental a ansiedade patológica está ligada á características do processo de informação seletiva do perigo. Distorções nesse processo redundariam em identificações errôneas do grau de ameaça e o resultado seria a formação da ansiedade.

A característica mais marcante do TAG está ligada á percepção de perda de controle sobre o meio ambiente, sendo esse sentimento, o fator principal que alimenta e mantém a ansiedade. Pessoas ansiosas em geral se consideram incapazes de lidar com ameaças.

Outros fatores contribuintes no desenvolvimento e manutenção do TAG seriam:

1. Um tipo de atenção seletiva referente a tudo o que possa representar ameaça.

2. Manutenção mnêmica e acesso rápido às informações relativas ao que possa representar ameaça.

3. Excesso de preocupação no que se refere à forma de como é percebido pelos outros.

4. Medo exagerado das sensações físicas provocadas pele ansiedade.

5. Erro de percepção quanto ao grau de estresse ou dificuldade de determinada tarefa.

Atualmente existe uma teoria que postula que as preocupações do TAG seriam defesas contra pensamentos intrusos e recorrentes de antecipação de eventos traumáticos. Ainda não existem dados empíricos que possam validar ou não essa teoria. (NARDI, 1996).

2.7. DIAGNÒSTICO DIFERENCIAL

TAG e Depressão: Nem sempre é fácil distinguir quando pessoas portadoras de TAG como problema principal, mas que também apresentam sintomas depressivos e casos de Depressão propriamente dita ou Distimia, porque esses problemas têm aspectos em comum. O indivíduo com Depressão é mais inclinado á fazer autocrítica e remoer a cerca de questões e circunstâncias que aconteceram no passado, enquanto que as pessoas portadoras de TAG têm a tendência de se preocupar com situações futuras, que ainda não aconteceram e talvez nem aconteçam.

TAG e Hipocondria: Pessoas portadoras de TAG e hipocondríacos costumam se preocupar com sintomas para os quais não existe uma explicação médica. A diferença é que os hipocondríacos são focados principalmente em doenças, ao passo que o tipo de preocupação dos acometidos pelo TAG é mais voltado para um número grande e variado de questões.

TAG e Transtorno de Pânico: O portador de TAG pode ter uma crise de pânico, mas diferentemente do que acontece no Transtorno de Pânico, esta é provocada por apreensão crescente, que vem se acumulando e por fim se torna incontrolável, mas não tem a característica de ser súbita e inesperada. Já o Transtorno de Pânico se manifesta normalmente através de ataques abruptos e inesperados em que o indivíduo sente que está correndo risco de vida. Pessoas com transtorno de pânico costumam ter pensamentos catastróficos sobre doenças gravíssimas e que ponham sua vida em risco de forma inesperada. Por outro lado, indivíduos com TAG, se focam mais persistentemente em queixas menos específicas e mais crônicas.

TAG e TOC: Pessoas com TAG e indivíduos com TOC, tem algumas características em comum, como pensamentos intrusivos e necessidade de checar. A diferença reside no objeto desses comportamentos e na sua intensidade. Os temas que preocupam os portadores de TAG são mais ligados á questões cotidianas como família, dinheiro, trabalho, saúde. Já a pessoa com TOC tende á se fixar mais em temores mais radicais, como contaminação, dano em alta escala, etc. No que diz respeito á comportamento compulsivo, os indivíduos com TAG se voltam mais para providências ligadas ás causas do seu temor. Por exemplo: checar se a porta está mesmo trancada antes de dormir. No caso do TAG, esse comportamento não é excessivo, nem ocupa demais o seu tempo como no caso da pessoa com TOC. Por outro lado, os indivíduos portadores de TOC apresentam compulsões ritualísticas, reguladas de forma bastante rígida, claramente excessiva, e não relacionadas de forma realista e objetiva ao que desejam evitar. (, BALDWIN 2019)

TAG e Ansiedade de separação:

Nesse caso, enquanto as pessoas com TAG se preocupam com um numero grande e variado de questões, e entre elas o medo de perder entes queridos; os indivíduos com ansiedade de separação se preocupam exclusivamente com a possibilidade de perder uma pessoa importante para eles. (BALDWIN, 2019).

3. HIPNOSE

3.1. HISTÓRIA DA HIPNOSE

Em toda cronologia da história do mundo a hipnose foi uma prática permanente. Inicialmente utilizada como forma de cura pelos sacerdotes. Não era empregada nos aspectos protocolares de hoje, mas como procedimento hipnótico buscando a cura de doenças e dores diversas. No Egito antigo, século 1500 a.C., os sacerdotes induziam um certo tipo de estado hipnótico com finalidade de cura, envolvendo religiosidade, misticismo e magia, conforme escrito nos papiros de Ebers. (BAUER, 2010).

Na Grécia antiga, o diagnóstico e cura dos doentes eram feito por intermédio do sono divino, um sono especial que suscitava a cura das pessoas. Neste sono chamado na época estado hipnagógico, as imagens apareciam automaticamente à consciência do indivíduo a ser curado e o sacerdote trabalhava os símbolos destas imagens, fornecendo as sugestões hipnóticas de cura. No século XI, Avicena, médico e filósofo iraniano, acreditavam que através da imaginação era possível suscitar a doença ou a cura do indivíduo (FERREIRA, 2003).

Registros de práticas hipnóticas foram encontrados em diversas partes do mundo. Nesses povos magia, religião, rituais e medicina se confundiam sendo utilizados com objetivo de cura (FERREIRA, 2003).

O período de experimentação científica da hipnose inicia-se no século XVIII e XIX com Franz Anton Mesmer (1734-1815), médico e advogado austríaco. Mesmer iniciou seus estudos sobre o magnetismo animal que seria responsável pela cura das doenças e dores dos indivíduos. Para Mesmer o corpo humano seria formado pela mesma substância que constituiria o universo, sendo assim para catalisar de forma harmônica esse fluido, ele aplicava imas nas frontes das pessoas buscando equilíbrio e a cura das enfermidades alcançando vários êxitos, porém foi acusado de charlatanismo, sendo investigado para verificação se as curas eram verídicas. Pelos estudos científicos daquela época a imaginação não era aceita e o magnetismo foi considerado um método fraudulento (FERREIRA, 2003).

Apesar de tudo isto, o trabalho de Mesmer teve grande repercussão no meio acadêmico e científico, despertando interesse em grandes nomes da ciência como Pavlov, Charcot e Freud. Ivan Pavlov (1849-1936) acreditava que o transe era uma espécie de ?sono incompleto?. Sua teoria a respeito do hipnotismo surgiu a partir de seus experimentos sobre a salivação dos cães na presença da comida (FERREIRA, 2003). Para Pavlov (1849-1936) a hipnose estava associada a uma inibição do reflexo condicionado. Para Charcot (1825-1893) o transe era considerado um estado patológico de dissociação, pois havia notado isto em seus estudos com pacientes histéricos. Esses estudos chamaram atenção de Freud que utilizava a hipnose com transe sonambúlico em seus pacientes causando a amnésia. Em 1918 no Congresso Psicanalítico de Budapeste ele fala em aliar à psicanálise a hipnose (BAUER, 2002).

Milton H Erickson (1901-1980) denominado pai da hipnose moderna criou um método exclusivo e individual de transe para cada indivíduo, inovando assim o uso da hipnose. Seus métodos eram naturalistas através de metáforas e histórias, assim ele ia conhecendo a trajetória de vida de cada cliente e atuando de forma eficiente nas queixas dos mesmos através do transe hipnótico. Segundo Milton H. Erickson, ?o transe é a suscetibilidade ampliada para a sugestão, tendo como efeito uma alteração nas capacidades sensoriais e motoras para iniciar um comportamento apropriado.?

No cotidiano vivencia-se em vários momentos um transe hipnótico, principalmente naqueles onde a atenção do indivíduo está focada e livre de distrações. O indivíduo pode entrar em hipnose dirigindo um veículo em uma estrada ou simplesmente assistindo um programa na televisão (FERREIRA, 2003). Em qualquer situação em que o indivíduo esteja focado em um estado de concentração maior, automaticamente o mesmo é induzido a um transe hipnótico natural. No caso da utilização da hipnose com finalidade clínica o indivíduo é induzido ao transe mecanicamente buscando o estado focado de atenção.

3.2. CONCEITO DA HIPNOSE

Hipnose é um estado natural de consciência ampliado onde o sujeito tem a percepção do que ocorre à sua volta, pois se mantêm acordado e ao mesmo tempo vai experimentando sensações, emoções, sentimentos, regressões, sensações físicas no corpo e outros fenômenos. Durante o transe o indivíduo fica mais focado em suas atividades internas desprendendo-se de percepções externas (BAUER, 2010). Até hoje não se conseguiu conglomerar toda a riqueza da hipnose, pois através do transe podemos capacitar um indivíduo na transformação de aprendizados e buscar no seu inconsciente a sabedoria para resolver conflitos que possam estar impedindo-o de caminhar como gostaria (FERREIRA, 2003)

Para Erickson o transe não é considerado um estado de sono. É um estado de sugestibilidade ativado artificialmente onde o indivíduo acessa elementos inconscientes e conscientes do seu psiquismo. O transe é um período no qual as estruturas internas do indivíduo ligadas às suas crenças e referência ficam temporariamente alteradas de modo que o indivíduo fica suscetível e receptivo á associações e respostas que conduzem para a solução dos seus problemas. Segundo Erickson a hipnose se caracteriza por uma sugestionabilidade aumentada em função de um estado temporário de atenção modificada. Ericsson criou várias técnicas, utilizando a hipnose, que são aplicadas até hoje. Para Erickson a conexão mente-corpo é parte do inconsciente, pois este armazena seus conteúdos e tem potencial para ajudar o indivíduo a superar suas dificuldades. Ele considera que o inconsciente de um indivíduo seria um recurso potente para resolução de suas dificuldades tendo em vista a mudança de comportamento e o amadurecimento do mesmo. Ele acreditava que a manifestação dos sintomas não era somente de origem patológica, mas também um sinal de algo dentro da aprendizagem desta pessoa não estava sendo adequadamente utilizado em uma situação específica da vida do indivíduo. Os estudos de Erickson contribuíram significativamente para que a hipnose retornasse à Medicina dentro de uma nova visão, sendo alimentada gradativamente por novas experiências e pesquisas científicas cada vez mais abrangentes em suas correlações (FERREIRA, 2003),

O transe hipnótico se demonstra de diferentes formas e é único para cada indivíduo, cada pessoa tem uma experiência única, variando em profundidade, intensidade e fenômenos apresentados. Sugestão e autogestão fazem parte do transe (FERREIRA, 2003).

3.3 FISIOLOGIA DA HIPNOSE

O estado alterado de consciência durante o transe atinge o nosso sistema límbico, sistema das emoções, evitando que as informações passem pelo pré-cortex que é responsável pelo planejamento, tomada de decisão, controle inibitório, atenção e memória de trabalho e são consideradas funções que podem ser classificadas como funções executivas. Por isso nosso lado consciente fica ?adormecido? com menos reservas e mais suscetíveis às sugestões administradas pelo terapeuta. Às vezes o transe é imperceptível ao indivíduo e muitos pacientes não acreditam que foram hipnotizados. Em exames neurofisiológicos de imagens podemos observar as alterações do córtex em pessoas altamente suscetíveis à hipnose (FERREIRA, 2003). Podemos verificar que o cérebro desses indivíduos fica mais focado e automatizado, ativando diferentes partes e com diferentes tipos de resposta de forma individualizada: alguns ativam o córtex frontal, ficando mais focados; outros o occipital responsável pela elaboração de imagens e outros o sistema límbico, responsável pelas emoções. Dessa forma podemos observar as diferentes reações em cada indivíduo durante o transe hipnótico (BAUER, 2010).

O estado hipnótico se assemelha ao estado de sono REM, porém exames de EEG não conseguem distinguir a diferença entre o estado de vigília. No estado hipnótico nota-se que os estímulos estão ligados ao sistema límbico, parte ligada às emoções, memória, aprendizado e regulação do sistema imunológico. A hipnose regulariza a atividade da amídala cerebral que está ligada ao hipotálamo e ao sistema nervoso autônomo favorecendo a recuperação do tônus muscular e induzindo o indivíduo ao relaxamento. Constatou-se também a ativação de todo o hemisfério direito esquerdo durante a indução do transe hipnótico e a ativação do giro do cíngulo nas fases de sugestão, analgesia e alucinação. Observa-se que as áreas ativadas durante as alucinações auditivas e visuais são as mesmas pontuadas em situações reais e que são diferentes das áreas ativadas durante a imaginação demonstrando assim os efeitos da hipnose nas diversas áreas cerebrais (SILBERFARB, 2011).

4. TRATAMENTO DO TAG COM A HIPNOSE

O transtorno de ansiedade generalizada (TAG) se caracteriza por preocupação e ansiedade á um grau tão alto que não permite ao paciente pensar com clareza e agir de forma produtiva para resolver seus problemas. Sob a influência dessa ansiedade fica atordoado e paralisado. O transtorno de ansiedade generalizado é um distúrbio psiquiátrico complexo e para lidar com seus sintomas existe uma variedade de tratamentos e intervenções. (ZAMBON2011 apud ANDRETTA).

A hipnose naturalista, método criado por Milton Erickson, se propõe á construir para cada cliente um tipo específico de transe, ¨sob medida¨ para as suas características individuais, levando em consideração a sua forma de resistência, como estrutura seus sintomas e etc. O trabalho de hipnose Ericksoniana com pacientes portadores de TAG utiliza linguagem de fácil acesso a cada cliente, empregando termos que ele próprio usa para descrever a si e às circunstâncias que provocam a sua ansiedade crescente, e os pensamentos povoados por conteúdos catastróficos. A espontaneidade é uma das características marcantes desse tipo de hipnose, usando o material trazido para acessar e trabalhar passo á passo o mundo interno da pessoa. O transe naturalista de acordo com a visão de Erickson não utiliza induções formais. Faz uso do que se poderia chamar de sinergismo, ou princípio de semelhanças (como na homeopatia), dando o mesmo do mesmo na busca pela solução viável para aquele paciente específico. Estratégias indiretas criadas de acordo com cada cliente estimulam com mais facilidade as forças paralisadas no interior daquela pessoa e tem o dom de fazer com que se sinta realmente o agente da sua própria cura. Na ansiedade em alto grau, essa estratégia de tratamento, cria um espaço de segurança e estabilidade dentro do paciente que o fortalece e motiva á lutar pela sua cura. (BAUER, 2013) e (BAUER, 1998).

De acordo com Marlus, (FERREIRA, 2006), o hipnoterapeuta experiente, monta o seu trabalho em cima das características individuais e histórico de cada paciente. Também ressalta como importante que passe á desenvolver seu estilo próprio para lidar com problemas específicos, adaptando o seu trabalho ás características individuais de cada paciente. Segundo ele, o papel da hipnose no tratamento do TAG, nas suas subdivisões (aguda, subaguda, crônica e dupla ansiedade), passa pelo gerenciamento dessa condição; incluindo em determinadas situações, estímulos indutores da ansiedade e paralelamente ensinando o paciente técnicas de relaxamento e visualizações positivas. Ainda de acordo com ele, no tratamento da ansiedade através da hipnose e da auto hipnose, as sugestões mais eficazes são as individualizadas, utilizando o vocabulário e as expressões com que o paciente descreve a sua ansiedade, nas suas manifestações físicas e psicológicas. Com relação aos sintomas orgânicos que aquela pessoa em particular apresenta, é importante ter conhecimento de como está a função respiratória, cardíaca, a coordenação, como se apresenta a área muscular dessa pessoa e o funcionamento do seu sistema nervoso autônomo (tremores, sudorese.). No que diz respeito à parte psicológica desse indivíduo, é essencial identificar se existe raiva, ressentimento, irritabilidade, capacidade de concentração comprometida, preocupação ou vergonha. O conhecimento do maior número possível de fatores como os acima mencionados, possibilitam a montagem de sugestões mais individualizadas, mais precisas, mais adequadas às necessidades do paciente. (FERREIRA 2006).

Estratégias cognitivas auxiliam na aceitação de eventos desagradáveis que possam vir á acontecer e leva o paciente apenas á descrevê-los ao invés de prevê-los. Uma ferramenta muito eficaz, também, visa á avaliação da probabilidade de um acontecimento temido ocorrer. Através desse recurso, o paciente é levado à avaliar realisticamente qual seria o resultado mais provável e também á equacionar a probabilidade de ocorrer o pior resultado. A conseqüência desse exercício seria induzir o paciente á questionar a lógica da sua previsão e á avaliar também que vantagens ou desvantagens a sua preocupação estaria lhe trazendo. (LEAHY,2004 apud ANDRETTA).

O relaxamento em suas várias modalidades (relaxamento muscular progressivo, relaxamento através de visualizações positivas, relaxamento passivo e respiração diafragmática), alivia os sintomas fisiológicos da ansiedade. (MARGIS & KAPCZINSKY, 2004 apud ANDRETTA).

O treinamento no manejo da ansiedade (TMA) ajuda o indivíduo á identificar as sensações de ansiedade em seus vários aspectos; emocionais, cognitivos e fisiológicos e á enfrentar essas sensações através do relaxamento. Valoriza a importância da auto-observação, para desenvolver a capacidade de identificar os primeiros sinais de ansiedade. O TMA, busca expor o paciente ás imagens que costumeiramente provocam ansiedade, enquanto que paralelamente o estimula á desenvolver as suas habilidades de enfrentamento. (ANDRETTA,20?.).

O manejo do tempo visa estabelecer prioridades, cronogramas de atividades e se destina á levar o paciente á aceitar a possibilidade de delegar responsabilidades quando necessário. (CLARK 1997apud ANDRETTA). A exposição ás preocupações, ordenando-as hierarquicamente também induz á dessensibilização gradual. Habilidades sociais também são susceptíveis de treinamento visando assertividade e empatia, que contribuirão para a diminuição da ansiedade, uma vez que vai levar o paciente á adquirir confiança na sua capacidade de lidar com situações de conflito. (PEREIRA 2005apud ANDRETTA).

O treinamento voltado para a solução de problemas que interferem na vida real é estabelecido em quatro etapas: 1- O problema precisa ser definido; 2- Soluções para este problema são identificadas; 3- A partir daí, chega-se á decisão; 4- Essa decisão é posta em prática, e á partir do resultado a solução (2) é avaliada. (DUGAS&LADOUCEUR,2007apud ANDRETTA).

A pessoa que tem Transtorno de Ansiedade Generalizada, em geral apresenta determinados esquemas: fracasso, defectividade e vergonha, desconfiança e abuso, vulnerabilidade de danos e doenças, erros cognitivos. O tratamento através de técnicas cognitivas, de relaxamento e hipnose, é o mais bem sucedido em termos de resultados.

A pessoa acometida de Transtorno de Ansiedade Generalizada apresenta em geral, esquemas de fracasso, sentindo que fracassará inevitavelmente, se já não fracassou. Se sente inadequada e acredita que não conseguirá conquistar o que seus colegas e familiares conseguiram. Tem muito arraigada dentro de si, a crença de que lhe falta inteligência, capacidade, criatividade? Em resumo, acredita ser inferior aos outros. Sua auto percepção negativa, foi formada por expectativas sobre si mesma, geradas á partir das características de sua família de origem. Sua família de origem funciona muitas vezes de forma emaranhada, prejudicando o seu processo de individuação e socialização. A família nesses casos atua solapando a confiança da criança; superprotegendo ou não a estimulando o suficiente.(YOUNG,2008).

Esquemas de defectividade e vergonha são também freqüentemente encontrados em pessoas com TAG. Esses indivíduos transmitem a noção de que se vêem como falhas, indesejadas, inferiores, não merecedoras do amor de pessoas que são para eles importantes. Caracteristicamente apresentam extrema susceptibilidade á críticas e comparações. Vivenciam sentimentos de insegurança e vergonha do que vêem como seus defeitos, suas inferioridades. Sua família de origem em geral é rejeitadora, imprevisível, abusiva e impaciente. Muitas vezes também é distante e fria; o que pode ter levado esse paciente á concluir que suas necessidades de empatia, segurança, proteção, aceitação e respeito não seriam satisfeitas de forma regular e previsível. (YOUNG, 2008).

O Transtorno de Ansiedade Generalizada também é construído á partir do sentimento de desconfiança e o medo de ser enganado, manipulado, humilhado, abusado, prejudicado de forma intencional ou negligente. Essa expectativa se forma em função das características da família de origem, descritas acima. (YOUNG,2008).

A pessoa acometida pelo Transtorno de Ansiedade Generalizada é prejudicada no processo de desenvolvimento de sua autonomia e capacidade de desempenho, pelo modo de funcionamento emaranhado de sua família de origem. Teme exageradamente a eventualidade de alguma catástrofe e sente que não teria como evitar. Como conseqüência, sofre com um sentimento de extrema vulnerabilidade ao dano e á doença. Erros cognitivos acontecem, levando á generalizações (ou tudo ou nada) e ás profecias auto realizáveis. (YOUNG, 2008).

A ansiedade é então aumentada na proporção da freqüência e intensidade da profecia auto realizadora. Outro fator é a ênfase excessiva em expectativas internalizadas e rígidas sobre comportamento ético e desempenho. Nesse caso, a família de origem é exigente, severa e muitas vezes punitiva. Estabelece padrões inflexíveis e postura crítica exagerada, que intensificam a ansiedade e levam á pensamentos de fracasso, inadequação e incompetência. A profecia auto realizadora é a conseqüência desses pensamentos auto condenatórios, que provocam mais ansiedade ainda, alimentando esse círculo vicioso.

Expressões freqüentemente emitidas por pessoas acometidas pelo Transtorno de Ansiedade Generalizada (Gomes, 2019).

*Sou um fracasso. *Sou burro.

*Sou inadequado. *Sou incompetente

Técnicas Gestálticas permitem a criação de diálogos imaginários, de catarse emocional, de imaginação visualizada e de representação de papéis. No que diz respeito ás Técnicas Interpessoais, o processo acontece quando os esquemas do paciente são ativados na ligação com o terapeuta. Este oferece a segurança e a estabilidade que possam ter faltado na infância. Auxilia o paciente á entender o conceito de esquemas e identificar os seus EIDs (Esquemas iniciais desadaptativos), relacionando estes aos seus problemas do momento presente e compreendendo as suas origens no passado. (SILBERFARB, 2011).

A relação terapêutica auxilia não só na identificação dos esquemas, como também numa relação que proporciona ao paciente as necessidades emocionais básicas, não supridas, que deram origem á criação dos seus EIDs (Esquemas Iniciais Desadaptativos). É o que YOUNG, (2003) chama com muita propriedade de Reparentalização Limitada. (SILBERFARB, 2011).

Na intervenção comportamental ocorre o que podemos chamar uma verdadeira quebra dos padrões do paciente. Ele já teve a oportunidade de conhecer os seus EIDs (Esquemas iniciais desadaptativos), como estes se desenvolveram e quais foram as estratégias de respostas e reações á esses padrões que ele adotou. Nessa etapa o paciente pode já se distanciar dos seus esquemas. Pode questioná-los e assumir daí para frente comportamentos mais saudáveis. Técnicas de relaxamento são muito usadas porque proporcionam à pessoa uma base de segurança, um espaço de acolhimento e aceitação. A hipnoterapia oferece esse estado de bem estar, estabilidade e segurança, que possibilita que a avaliação dos EIDs seja feita. Sua utilidade se faz sentir durante todo o processo terapêutico.

O paciente diminui a hipervigilância sobre as sensações internas quando é ajudado pelo seu terapeuta a se dar conta do papel crucial que desempenha nesse processo. Passa á entender a atuação do terapeuta como mediador; mas principalmente consegue enxergar as suas possibilidades de criar dentro de si, (através da auto-hipnose), estados psicofisiológicos especiais e específicos que a/o sustentam e ajudam á lidar com momentos de estresse ou ainda quando suas necessidades emocionais não estão sendo supridas. (SILBERFARB,2011).

Em transe é mais fácil o acesso ás emoções associadas ás preocupações, crenças e distorções cognitivas. Em alguns casos essas preocupações podem até assemelhar-se ás de pacientes com TOC, pelas características de superstição e magia. (SILBERFARB, 2011).

Os pacientes com TAG têm sua capacidade de raciocínio prejudicada pela excitação elevada e pela hipervigilância, o que ás vezes atrapalha as tentativas de estabelecer novas estratégias. O trabalho de hipnoterapia, utilizando imagem e emoção, também funciona removendo barreiras e possibilitando o andamento do processo. ( SILBERFARB 2011).

No entendimento de Ladouceur; Doisvert & Dumont (1994) as preocupações podem ser de três características distintas:

Preocupações com problemas imediatos, ancorados na realidade e modificáveis: Para situações com essas características, as técnicas de imagem e ressignificação são muito eficientes.

Preocupações com problemas imediatos ancorados na realidade, mas não modificáveis: nesse caso o trabalho se volta para as emoções, pois estas estão sendo provocadas por preocupações acerca de eventos que não são passíveis de modificação, embora tenham base na realidade. A meta é preparar emocionalmente o paciente para lidar com a fatalidade. O trabalho é mais dirigido ás emoções provocadas por essa situação real, do que com a situação em si.

Preocupações acerca de acontecimentos muito improváveis, sem base na realidade e em conseqüência disso, não modificáveis. O tratamento é feito através de dessensibilização sistemática. Nesse caso, o transe hipnótico, proporciona vivência mais intensa das imagens mentais. A respiração diafragmática, o relaxamento profundo e a reestruturação das crenças do paciente, levam á uma maior ativação emocional. Nesse tipo de caso, a prática sistemática de aprofundamento de transe é de grande valia, porque quanto mais profundo o transe hipnótico, melhor será o resultado das sugestões, maior será a ativação emocional e mais intenso o efeito das sugestões pós-hipnóticas. Essa técnica de repareamento, com sensações de relaxamento e bem-estar, só deve ser usada quando o teor das preocupações do paciente pode ser classificado como improvável. (LADOUCEUR1994apudSILBERFARB2011).

A Hipnoterapia Cognitiva desempenha um papel de relevo no tratamento do Transtorno de Ansiedade Generalizada- TAG. Intervenções comportamentais e cognitivas têm como objetivo atenuar os sintomas de ansiedade e gradualmente enfraquecer as crenças que fragilizam o paciente com TAG, defrontado com previsões negativas de futuro e oprimido com suas preocupações excessivas. (SILBERFARB, 2011).

Ajudado por seu terapeuta, o paciente passa gradualmente á retomar o controle de si mesmo e de sua vida, entendendo que tem dentro de si, a capacidade de lidar com certas situações que anteriormente levavam á sua desestruturação.

Se por um lado a hipnoterapia é uma grande ferramenta no tratamento de pacientes com transtornos de personalidade, considerados os mais difíceis; podemos afirmar que é na redução dos sintomas de ansiedade que os resultados mais rápidos aparecem.

A Terapia cognitivo- comportamental ampliou bastante o alcance de suas atuações bem-sucedidas, ao incorporar conceitos e técnicas da Terapia do Esquema. Quando se trata de pacientes com transtornos de personalidade e problemas caracterológicos (transtornos psicológicos crônicos e arraigados), a abordagem de TCC da chamada segunda geração é mais eficaz, pois coloca mais ênfase no vinculo terapeuta-paciente. Essa abordagem possibilitou tratamento eficiente á indivíduos que não respondem satisfatoriamente á tratamentos cognitivo-comportamentais tradicionais. (YOUNG, 2008) apud (SILBERFARB, 2011).

De acordo com Young, (2008) a noção do que representam os Esquemas Desadaptativos Remotos na vida emocional das pessoas, levou á uma mudança de foco na abordagem terapêutica. Num primeiro momento busca-se avaliar e conceituar o caso, com ênfase no relevo da relação terapêutica e no conceito de apego e sua importância na formação da personalidade.

Em seqüência vem o processo de mudança de esquema com intervenções cognitivas, comportamentais, interpessoais e experienciais. Sua meta é auxiliar o indivíduo á observar primeiramente as distorções criadas pelos EIDs (Esquemas Iniciais Desadaptativos) e dar á essa pessoa a possibilidade de resolver essas distorções. (YOUNG,2008).

A utilização das sugestões pós-hipnóticas com o uso dos cartões de enfrentamento, aumenta a sua abrangência com relação aos esquemas ativados. Também funciona com cartões referentes aos novos esquemas desejados e mais adaptativos. Podem ser usadas técnicas de imagem, sensações fisiológicas, memórias afetivas e corporais, promovendo a visualização de novas memórias mais adaptativas. O esquema pode ser deflagrado dentro da sessão terapêutica, através de técnicas experienciais, permitindo que a pessoa expresse seus sentimentos e emoções. As técnicas de imagem proporcionam a visualização de cenários novos que passam á serem incorporados ao repertório da pessoa. A hipnoterapia cognitiva permite também um bom manejo das sensações fisiológicas trazidas à tona por memórias afetivas e corporais. (YOUNG,2008apud SILBERFA

CASOS CLÍNICOS

Seguem abaixo alguns casos clínicos realizados em prática clínica onde foram modificados sintomas e personagens com o objetivo de proteção de fatos reais.

Caso A: Homem 45 anos, engenheiro, casado, dois filhos maiores. Procurou a terapia por ter sido encaminhado pelo psiquiatra com diagnosticado de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Os sintomas da patologia estavam atrapalhando seu trabalho de forma considerável. Começamos seu tratamento ensinando-o as técnicas de auto-hipnose, resgatando conteúdo da infância onde o mesmo se sentia desprotegido e com muito medo. Figurais parentais ausentes ratificavam nessa criança um sentimento forte de desproteção. Foram feitas algumas sessões buscando uma regressão desses acontecimentos. Nessas regressões trabalhamos o sentimento de desproteção; elaboramos também algumas sessões com visualizações de futuro onde o cliente se via totalmente seguro e potente para o desenvolvimento do seu trabalho. Em alguns meses de psicoterapia o indivíduo já se sentia com total segurança em voltar as suas atividades. Foi orientado a continuar com suas práticas de auto-hipnose.

Caso B: Mulher 32 anos, solteira, secretária, sem filhos. Procurou terapia por indicação de seu médico psiquiatra que já havia receitado medicamento. Cliente relata uma ansiedade constante onde sentia até mesmo dores no peito. Sentia-se muito insegura e com dificuldade para tomar as rédeas de sua vida. De imediato começamos com técnicas de respiração e já na primeira sessão ela diz se sentir muito bem. Nos encontros seguintes foram feitas algumas sessões utilizando as metáforas (banho de cachoeira, banho de luz, etc.), deixando a cliente mais segura para atuar na verdadeira causa do problema: abandono do pai quando ainda era bebe. Fizemos algumas técnicas de regressão atuando na causa do sentimento de insegurança e desproteção que traziam a sensação muito forte de ansiedade diante de situações do cotidiano. Ensinamos algumas técnicas de auto-hipnose que a cliente utilizava todos os dias antes de dormir. Passados seis meses a cliente se sentia muito feliz com suas mudanças e forma de lidar com situações inusitadas. Fizemos uma última sessão com uma técnica denominada ?Renascimento? e ao final ela diz se sentir pronta para seguir seu próprio caminho e em condições de lidar com sua ansiedade de forma natural.

Segue abaixo o protocolo da técnica denominada Renascimento desenvolvida pelas autoras do presente artigo:

Inspirando e expirando você vai caminhando por um lugar lindo, uma praia de águas cristalinas. Aos poucos você vai entrando dentro dessa água gostosa morninha sentindo uma sensação muito boa dentro de você, uma paz, uma tranqüilidade jamais vivenciada antes e você vai fechar os seus olhos sentindo essa água em contato com seu corpo. Aos poucos você vai se percebendo flutuando dentro desse líquido esse líquido de vida de transformação. Vai percebendo a formação do seu córtex, as batidas do seu coração, a formação das suas vísceras e de todo o seu corpo, de todos os seus membros. Vai se sentindo plena, em paz, segura e tranqüila. Você percebe seu corpo totalmente formado essa maravilha do universo e percebe a sua frente um túnel de luz branca que te chama, você vai em direção a ele. Vai passando por esse canal desconectando desse líquido de vida e se posicionando para entrada no universo da vida, da sua nova vida. Percebendo uma luz forte que a princípio te faz enxergar com muito cuidado e aos poucos você vai abrindo seus olhinhos entrando em conexão com outros dois olhos que te esperam. São os olhos da sua figura materna, dessa mulher que te espera, dessa mulher que tem muito amor para te oferecer. Vocês duas fazem essa conexão do olhar sentindo o coração bater de forma mais acelerada, uma sensação gostosa, sentindo dentro de você esse amor incondicional, esse amor que vibra contente. Esse amor que te faz renascer, te reconhecer e te amar. E você vai sentindo uma alegria grande dentro de você. Você fecha seus olhos vira sua cabecinha e vai abrindo novamente fazendo conexão com a sua figura paterna, esse homem que neste momento te espera mas que talvez não saiba lidar com esses sentimento mas você possui do outro lado alguém te ama que acredita e vibra com seu nascimento, com a sua chegada. E nesse momento você grita de felicidade explodindo no choro, um choro de vibração, um choro de aceitação, um choro de transcendência. E todo o universo se conecta com você. E você vai sentindo a vibração da vida dentro de você dentro do seu corpo. Vai percebendo a força interior que vibra, que se conecta com você através desse renascimento. A oportunidade que você tem de renascer e transformar tudo que deseja. Porque a partir de hoje você se sente renovada, transformada, renascida. Renascida para tomar as rédeas da sua vida com tranqüilidade e segurança. Mudando e modificando tudo o que você deseja, porque a partir de hoje você é vencedora você é dona da sua vida, da vida que você deseja.

Brilhando, transformando e sendo amada. Sim, você hoje renasceu, renasceu para uma vida nova, plena e cheia de vitórias. Renasceu para o mundo e para o universo. Hoje você se sente plena pronta. Você se sente bem e feliz segura e transformada, e é assim de agora em diante que será a sua vida a partir desse renascimento você se transforma numa nova mulher, uma nova pessoa. Seja muito feliz, conquiste tudo que deseja com paz e tranqüilidade, você renasceu.

Caso C:

Mulher, solteira, 34anos, advogada. Foi encaminhada pelo psiquiatra, diagnosticada com Transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Já estava tomando ansiolíticos há alguns meses. Os sintomas do TAG se faziam sentir fortemente em seu trabalho como advogada, prejudicando o seu desempenho profissional. Ficou claro, desde a primeira entrevista, que os seus sentimentos de inferioridade, insegurança e baixa auto-estima, estavam relacionados ás características de sua família de origem. Seus pais, especialmente o pai, nunca tinham mantido relacionamento próximo com os filhos. Em muitas ocasiões rejeitadores, os pais eram distantes e ocasionalmente frios e impacientes. Estabelecendo o vinculo, vieram em seguida, a psicoeducação sobre esse transtorno, a respiração diafragmática, o relaxamento e dissociação das emoções negativas e sentimentos de rejeição. Técnicas como a da Luz curativa, a da Respiração Azul e foram usadas com resultados muito bons. A auto hipnose desempenhou um papel muito significante no tratamento dessa cliente. Foram usadas técnicas de visualização de um futuro onde se via bem sucedida profissionalmente e bem aceita afetivamente. Passou á fazer uso assíduo da auto-hipnose e em poucos meses viu crescer dentro de si um sentimento de auto confiança nas relações pessoais e competência no trabalho, que eram novos para ela.

Caso D: mulher, 28 anos, bióloga, solteira. Veio através de um primo, psiquiatra, que a conhece desde a infância. Embora tivesse fosse formada, sentia extremo medo, todas as vezes que surgia a possibilidade de trabalho no seu campo de atuação. Seus sentimentos de inadequação e certeza de fracasso, faziam com que evitasse assumir qualquer oportunidade que surgisse. Descrevendo sua história familiar, falou da separação dos pais quando ainda era muito criança. O pai embora separado da mãe tentava ter convivência com ela, mas a mãe dificultava e embora ela estivesse ciente das tentativas do pai se sentia distanciada dele. O relacionamento com a mãe era aparentemente satisfatório, mas extremamente restritivo e limitador no que dizia respeito á outras pessoas (crianças do prédio, da escola, etc.), Em conseqüência disso teve seu processo de individuação e amadurecimento muito prejudicados. Atualmente pode ver que a mãe era superprotetora e emocionalmente invasiva; mas durante a infância não de dava conta disso. Uma vez que o vinculo foi trabalhado e estabelecido, conversamos (psicoeducação) sobre esse transtorno, suas origens e conseqüências. Aprendeu a relaxar e passou á praticar relaxamento em varias situações desafiantes para ela. Tanto o relaxamento, a respiração diafragmática, quanto às técnicas de visualização deram á ela uma sensação de controle, no melhor sentido, sobre sensações negativas e idéias de fracasso. Bolinhas de sabão e Indução da cor também foram usadas com bons resultados. Começou á se questionar quanto a suas idéias de fracasso. Em alguns meses começou a admitir que tinha certas competências em varias áreas da vida. Gradualmente começou á se sentir menos ameaçada e insegura. Passou á expressar opiniões (próprias e originais) sobre vários assuntos em grupos pequenos. Seu tom de voz se tornou mais forte e definido. Atualmente está cogitando fazer uma Pos graduação para tentar se inserir no mercado de trabalho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A hipnose é uma técnica de grande utilidade no processo psicoterápico, sobretudo no trabalho do Transtorno Ansiedade Generalizada (TAG). Ela tende a facilitar o encontro do indivíduo com relação a si mesmo, aumentando a percepção dos seus processos inconscientes, suscitando conteúdos emocionais que estejam ocultos ou submersos. Desta forma é possível trabalhar os processos inconscientes do mesmo com segurança facilitando a elaboração, ressignificação e superação de problemas ou questões mal resolvidas.

A experiência com a hipnose vem demonstrando que com a hipnoterapia não somente o passado ganha outros sentidos, mas também a própria relação do sujeito consigo mesmo e suas projeções futuras. Percebe-se que a mente humana admite de forma aceitável uma associação de estímulos visando o bem- estar e o equilíbrio do corpo, trazendo a perspectiva de uma vida leve e feliz.

No tratamento do Transtorno de Ansiedade Generalizada percebe-se que a patologia se desenvolve diante de um conflito passado e mal elaborado que tende a se repetir na sua trajetória de vida. Indivíduos com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) desenvolvem um sentimento de desconfiança e medo e buscam suprir suas necessidades de empatia, proteção aceitação.

Dentro da prática clínica verifica-se que quando um indivíduo se mostra disponível ao processo, se permitindo e sendo verdadeiro com suas demandas o processo se estabelece de forma rápida liberando o indivíduo para uma vida plena e saudável.

REFERÊNCIAS

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